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  • Lucas Almeida

Sabe aquele clima de fim de ano que todos no escritório já vão trabalhar com a mala de viagem e a roupa de banho por baixo do terno e gravata porque, dali, vão direto para a praia? Aqueles tempos que já imaginamos as notícias da Marginal parada desde a Ponte das Bandeiras e o litoral cheio de turistas. Eu, particularmente, adoro essa época que a rotina se quebra e, de repente, a cidade caótica já não tem mais tanto caos e até os ônibus estão vazios as oito da manhã de terça feira.

Apesar de muito se falar sobre sair de São Paulo, e digo São Paulo por estar escrevendo daqui, mas o mesmo se aplicaria a Porto Alegre ou Salvador, sempre queremos voltar, seja pelo trabalho, pelas relações que criamos, pelos museus e casas de show que frequentamos sexta à noite, pela Paulista e pelo Minhocão de domingo e tantas outras coisas que nos fazem amar essa cidade, portanto, mesmo adorando ir embora de vez em quando voltar é sempre bom.

Porém existem alguns tesouros escondidos nessa selva de pedras, existem pessoas que, mesmo sem a mala de viagem e a roupa de banho, têm a sensação de estar saindo da cidade todo dia quando voltam pra casa, com o benefício de não pegar a Marginal parada e sequer sair da zona sul. As vezes é até difícil lembrar que existe calma, tranquilidade e casas com quintal bem no meio do Cambuci mas é exatamente isso que as faz um oásis urbano. A janta se torna um convite para ver as estrelas e o café da manhã vira um momento de regar as plantas, qualquer chance no meio do dia de conversar com a vizinha por cima do muro é uma oportunidade de ganhar uma mudinha de jiboia ou um pedaço de torta de maçã. Diferente das janelas que observam a cidade, esse quintalzinho é observado por ela, como se fosse uma joia incrustrada no mar de concreto.

Quando a Europa mudou de cenário no pós revolução industrial houveram muitos debates sobre o futuro das cidades, em meio a uma Londres suja e poluída Ebenezer Howard foi o teórico que propôs que a cidade fosse intercalada com grandes áreas verdes nos bairros residenciais, projeto que ficou conhecido como a Cidade Jardim. Acontece que a cidade é um organismo vivo, ela cresce, amadurece e faz relações de maneira espontânea e única, muito mais como um caos planejado, mesmo com todo o conhecimento teórico de urbanismo moderno temos a mera capacidade de direcionar o crescimento urbano, mas não o controlar. Entretanto a Cidade Jardim permanece até hoje no nosso ideário e é uma busca constante de moradores de grandes centros urbanos. Talvez seja exatamente por isso que uns poucos metros quadrados de grama cobertos apenas pela abóbada celeste sejam de tamanho valor para nós.

Apesar do magnífico avanço tecnológico, apesar das máquinas, computadores e arranha-céus, apesar da rapidez e do dinamismo ainda somos orgânicos, somos seres de carne, osso e sangue e nosso cérebro é dividido entre racionalidade e emoções, ainda que saibamos o que gostamos e o que nos tira do sério a intensidade dessas emoções pode ser alterada se estamos em um ambiente estressante e artificial ou pisando descalço na grama. Mais ainda em tempos de isolamento, no momento em que todos os que puderam se trancaram em suas casas e pararam de frequentar a cidade as varandas foram a grande salvação de alguns, viraram talvez o cômodo mais importante de muitas casas, especialmente para tomar um solzinho depois do almoço, imagine então tomar o mesmo solzinho deitado na grama de um quintalzinho que, apesar do bucolismo está a poucos quilômetros da Avenida Paulista.

Acredito que existam diversas maneiras de morar na cidade grande, nem todas estão relacionadas com o tipo de moradia pois em uma metrópole como São Paulo o apartamento passa a ser o mais comum para quem vive próximo ao centro expandido da cidade, contudo ainda me enche os olhos encontrar esses pedacinhos de paz no meio do trânsito e do barulho, não só pelo privilégio de ter o seu próprio Ibirapuera a poucos metros da porta da cozinha mas porque, no fim, percebemos que não é o que nos rodeia que tem o maior valor, mas o ambiente que ali é criado é que realmente importa.

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  • Lucas Almeida

Se formos procurar um dicionário com o repertório de palavras dos arquitetos “ampliar” e “integrar” talvez estejam entre os verbetes mais usados no dia-a-dia. Acontece que, quando estamos pensando em conceber um espaço, a ideia é de que tudo se converse para que realmente haja uma história e não seja apenas um apanhado de móveis e objetos sem liga. Se fosse em um bolo a integração seria a reação entre o glúten da farinha, o ovo e o fermento que vai fazer aquilo tudo virar uma massa só e crescer, ela é responsável por trazer uma característica de todo. Já a ampliação é a noz moscada, a canela e o gengibre que vão realçar o sabor do chocolate e trazer novas sensações quando comemos, aquilo que muda nossa perspectiva do ambiente e, muitas vezes, a forma com que o usamos.

Veja bem, ampliar nem sempre significa precisar de mais espaço. Existe uma ideia de que é necessário ambientes grandes, salas suntuosas e espaçosas para não sentir claustrofobia, contudo nossa noção de espaço apertado não se fixa somente no tamanho do ambiente. Janelas, altura do pé direito, cores, móveis, tapetes, iluminação e uma série de outras composições mudam a percepção de amplitude. Se ao sair do elevador nos deparamos com um hall cheio de espelhos temos uma sensação de amplitude por conta do reflexo, mas quando passamos pela porta e nos deparamos com a vista da varanda, na outra ponta da sala, que enquadra uma paisagem linda de São Paulo, a sensação de amplitude estará muito mais presente na paisagem do que no tamanho da sala em si.

Talvez seja daí que veio nossa vontade de integrar cozinhas com sala na maioria das vezes, esse desejo quase que universal não diz respeito meramente à amplitude visual de se cozinhar assistindo TV ou conversando com quem está no sofá, mas também é com a ausência de barreiras que deixamos de ter várias histórias fragmentadas a ser contadas e passamos a ter uma só. Enquanto deitamos preguiçosamente assistindo pela sétima vez A Fantástica Fábrica de Chocolate que passa na TV da sala existe alguém na mesa de jantar fazendo a lição de casa, na varanda outra pessoa estará admirando a vista enquanto uma quarta estará no fogão preparando omeletes e salada para o almoço, todas conversam ao mesmo tempo que todas escutam as sacadas irônicas de Willy Wonka e sentem o cheiro da salsinha fresca na frigideira invadir todo o espaço.

Contudo a integração não se dá apenas pela ausência, seja de portas, paredes ou barreiras. Ainda que se tenha tamanho, vista e aberturas é possível sentir-se apertado em alguns cantos, espaços que viram meras passagens por conta da largura estreita ou por não se ter uma função. Felizmente, para nós, quando Le Corbusier consagra a arquitetura moderna numa Europa devastada no pós guerra ele traz as fitas como o suprassumo da modernidade, a fita pode ser qualquer coisa que seja mais comprida do que larga, seja uma janela que rasga toda a fachada ou uma mesa que sai da cozinha e chega até a varanda sem nenhum pé, apenas abraçada ao pilar que a sustenta. As fitas têm a função além de estética, elas permitem que a gente traga um elemento de lá pra cá mesmo quando temos pouca largura de passagem e garante que tudo será conectado, sem deixar nenhuma pelota de farinha no nosso bolo.

Sendo assim, a orquestra da vida doméstica é tocada a diversas mãos fazendo diversas coisas ao mesmo tempo em diversos lugares diferentes, ela começa tirando abobrinhas da geladeira e as fatiando ao lado da pia da cozinha para logo enviá-las para a varanda através da mesa em fita, ali elas são embebidas em molho e entram na churrasqueira até a crosta crocante se formar, as abobrinhas, então, irão para a mesa de jantar junto com o arroz e as fritas e o cheiro que se espalha por todos os cantos irá chamar a todos que estiverem assistindo TV ou lendo um livro em alguma poltrona do cômodo. O ápice da peça será o momento em que todos se sentam juntos à mesa e o ambiente se inunda com o tilintar de garfos e facas, risadas e vozes sobrepostas até que não sobre mais nenhuma batata frita na travessa. Para a alegria de todos, nessa orquestra não existe cortina que se fecha com o fim da apresentação, o projeto de arquitetura foi perspicaz em lembrar que, depois que a janta acaba, a cozinha estará logo ali e todos poderão ajudar a lavar a louça.

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  • Lucas Almeida

É muito comum buscar uma forma de o ambiente transmitir a mensagem que queremos passar para quem o visita, especialmente quando se trata de um escritório ou algum espaço comercial onde se tem a intenção de vender uma imagem ao cliente que está ali pela primeira vez. São diversas as maneiras que podemos contar uma história sem sequer abrir a boca, as cores nas paredes e os quadros pendurados, fotos e lembranças de viagens, diplomas, flores e plantas e uma biblioteca pessoal dizem muito a respeito de quem usa o ambiente e como o usa.

Nessa busca por respostas a arquitetura muitas vezes disseca o usuário para poder expressar quem aquela pessoa é nas cores, mobiliários e decorações que estão ao redor, seja para que a pessoa se identifique no espaço e se sinta em casa, mesmo que esteja em uma pizzaria no happy hour com os colegas de trabalho, ou então sinta firmeza e convicção no que é dito ali, quando se trata de um cliente visitando o escritório do seu advogado, por exemplo.

Especialmente nesse segundo caso existe muita história para contar dos porquês de cada coisa. Marco Vitruvio (o mesmo que serve de inspiração para o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci) escreveu um tratado chamado De Architectura no qual falava das características que tornavam algo arquitetura ou não, dentre elas, as três principais eram firmitas, utilitas e venustas. Firmeza, utilidade de beleza eram indispensáveis para qualquer arquitetura pois ela precisa ficar de pé e sem correr o risco de colapsar, precisa ter alguma utilidade além de ornamental para que faça sentido de ser inserida naquele contexto e precisa ser atraente, harmônica e bela. Séculos se passaram e ainda utilizamos a tríade vitruviana na execução de projetos de arquitetura em diversas escalas, voltando ao escritório do arquiteto em questão, quando o cliente sentar na mesa de reunião poderá se impressionar com a beleza do mármore polido, a venustas, a solidez e frieza da pedra trarão ainda mais credibilidade para a fala daquele advogado que estará apresentando seu trabalho (firmitas) e, ao final de uma longa explicação, utilizará a superfície brilhante para assinar o contrato (utilitas).

Com isso vamos criando toda uma espacialidade que se apoia nesse tripé conceitual, desde a pia da copa que apoia o café e bolachas até a estante de livros com painéis em muxarabi que buscam na arquitetura árabe suas referencias para a composição da peça, detalhes de marcenaria nas mesas de trabalho que além da função estética organizam os objetos e permitem uma clara leitura do que acontece naquele espaço, plantas, quadros e o próprio painel de madeira que, além de decorar e acalentar buscam adicionar ao escritório sólido uma escala humana e frágil, que precisa de sol e água assim como nós para se manter viva.

Portanto não é apenas de memórias que vive um ambiente, a história que ele conta pode ser utilizada para amplificar, reforçar, autenticar e qualificar o discurso que ali acontece. Sentir a pedra fria contra a pele enquanto escuta um argumento de defesa te leva a enxergar aquela fala dentro do sólido pilar ético e imparcial do direito, combinar um elemento de arquitetura que saiu das arábias e viajou pela Europa até chegar no Brasil junto com uma estante de livros dá a ela não apenas um caráter estético e organizador mas extrapola o conhecimento que está dentro daquelas capas para que o visitante também veja suas referencias sem sequer ter lido na vida algum livro sobre arquitetura moura. As memórias ainda adicionam uma camada nova acima de tudo isso que dá liga a esse monte de buscas que vão formando um ambiente multicultural, são elas que vão atribuir o caráter pessoal para sabermos que ali existe um ser humano de carne o osso ocupando, usando e vivendo, irá diferenciar o que é orgânico do que é apenas um mostruário de loja de departamentos, que apesar de ser belo carece de calor.

Enfim, existe muita margem para contar história na arquitetura, é por isso que preservamos patrimônios que as vezes pouco entendemos a razão dada a simplicidade da composição, por isso que mantemos vivos museus e casas de personalidades que marcaram nossa história, por isso ainda andamos na rua e, frequentemente, olhamos para cima e enxergamos a imensidão de prédios ao redor. Se a vida é feita de histórias a arquitetura é quem vai montar um novo cenário para cada uma.

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