A selva


Imagino como deve ser o mundo para alguém que acabou de nascer, um lugar onde simplesmente e absolutamente tudo que existe é desconhecido, nascer é como aquele filme chamado ‘Na natureza selvagem’ no qual o protagonista decide abdicar da vida urbana para ir viver no meio de uma mata e precisa reaprender coisas básicas como novas maneiras de se alimentar, se entreter e se limpar

Certamente vir ao mundo deve ser muito menos dramático que no filme, no qual o personagem se encontra diante do desafio de literalmente ter que caçar a própria comida, isso porque passamos ao menos uma boa década tendo alguém que vai preparar nosso almoço e nos levar pro banho na hora certa, entretanto todos aqueles sons, cores e texturas novas não existiam no nosso casulo placentário e, portanto, essa primeira mudança de casa traz consigo uma nova maneira de ver a vida, só que sem manual de instruções ou dicionário.

De uma hora pra outra somos jogados aos leões e precisamos achar uma árvore para nos trazer sombra e abrigo, aprendemos logo que, assim como as girafas, precisamos usar nossos novos pescoços para ir atrás da comida (que por sorte vai chegar diretamente na nossa boca e não no topo de uma árvore) mas também que seremos pendurados como macacos nos braços de uma mãe toda vez que chorarmos de dor de barriga. Vamos começar a andar igual patinhos, indo atrás daqueles novos adultos que aprenderemos mais tarde a chamar de pais, mães, avós ou tias e infelizmente não poderemos ser como um flamingo e apenas enfiar a cabeça na terra quando precisarmos passar por alguma situação que não nos agrade. Com o tempo, vamos aprendendo a voar cada vez mais alto e as onças que antes pareciam perigos iminentes passam a ser apenas algo a mais nesse novo mundo que chamamos de casa, nele terão várias cores e plantas novas e teremos que ser cuidadosos para saber aquelas que poderemos comer ou não, com sorte, sempre teremos um adulto pra auxiliar nessa jornada.

Porém o mais interessante de tudo isso é que, mesmo o mundo parecendo uma natureza selvagem, temos bastante tempo para nos adaptar. Ainda que tudo seja novo, bonito e levemente assustador poderemos sempre contar com uma cama quentinha para nos esconder toda vez que as energias de exploração se esgotarem e teremos em nosso alcance milhões de historinhas que serão lidas pelo nosso adulto de confiança, fazendo nossa cabeça viajar ainda mais em mundos que todavia sequer conhecemos. Na pior das hipóteses, quando a agonia for grande, a cadeira de balanço pode tentar imitar nosso casulo-lar, de onde viemos, não para que a gente saia desse mundo, mas para que nos lembremos que nada é tão assustador que não pode ser enfrentado, que as vezes precisamos voltar um tiquinho para nos encontrarmos e poder prosseguir nessa exploração que é a vida.

Apesar de assustador, a vida vai ser um mar de novidades que vai alimentar qualquer mente curiosa e nos fará querer ir cada vez mais longe, até o momento que viremos os reis da nossa própria selva particular. A partir daí, os tigres e onças não serão mais ameaças, saberemos bem que não podemos tocar no porco espinho e os leões servirão como amigos protetores, cresceremos tanto que já não vai mais parecer que estamos desamparados, muito pelo contrário, começaremos a ter saudades de toda aquela aventura que foi viver e iremos estampar isso pelas paredes do nosso novo lar na terra, para nos lembrarmos sempre de como foi demais chegar nesse mundo como um pequeno aventureiro.

Por isso que digo, nascer deve ser a maior aventura de nossas vidas, isso porque quando alguém nasce todos ao redor também renascem. Garcia Marquez dizia que não nascemos apenas quando somos paridos mas que a vida nos obriga a parirmos a nós mesmos outras e outras tantas vezes durante nossa jornada, talvez a selva seja menor e menos assustadora a cada novo renascimento, mas é a vontade de descobrir o que pode ter de novo que nos faz nascer mais uma e mais outra e uma outra vez mais.

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