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  • Lucas Almeida

Os temperos


Existe uma grande diferença entre cozinhar com temperos frescos e aqueles que vêm em saquinhos, essa regra não se aplica apenas às ervas, mas também à grãos como pimentas e cafés em geral. Geralmente quando a pimenta é torrada e moída para ser vendida em pó ela não é pura, vem junto com galhos e folhas que mudam o gosto final, deixando o pozinho um tanto morto e pacato. O mesmo acontece com o café moído que, por ter impurezas, é necessário ser torrado por mais tempo, resultando numa bebida mais amarga. Já para as ervas a diferença não é nada sutil, oréganos, manjericões, louros e tomilhos têm todos o mesmo gosto de esquecido no fundo do armário quando compramos seco e moído. Apesar de ser um ferrenho defensor do frescor, não apenas nos temperos como também nos alimentos, não é por que eu mesmo seja um fresco, na realidade faço minhas as palavras de Paola Carosella quando defendo que devamos ter nossas próprias hortas, moedores e pilões para que nossa comida seja temperada, perfumada e abraçada com essa combinação de plantas que deixam a vida mais feliz.

A felicidade resulta de um combinado de vários fatores, um deles certamente será o manjericão fresco em cima do espaguete ao sugo que vai tingir de vermelho os queixos ao redor da mesa. Mas também a brisa fresca que entra pela varanda e abraça o sofá rouge enquanto aproveitamos a luz do dia para ler um livro numa tarde preguiçosa, o banho com cheiro fresco de lavanda massageando os pés no chão de seixos, as sessões de cinema com os pés para cima do pufe apoiando um balde de pipocas e suco fresco de laranja nas pernas, e até o limão que respinga na bancada preta da ilha da cozinha antes de virar três copos de caipirinhas frescas para animar o churrasco na varanda. Existe um prazer no frescor que perpassa todos os sentidos, desde o gosto do macarrão até o aconchego do sofá da varanda, a sensação de massagem nos pés por causa do piso do box, o som das risadas na sala e o cheiro cítrico do limão se misturando como o alho no churrasco.

Isso tudo também não é por acaso, apesar de parecer loucura defender ambientes frescos no frio inverno paulistano com noites de poucos graus Celsius ele pode também ser um belo casal com o aconchego quente dos cobertores, lareiras e bebidas que aquecem a alma. Existe frescor nas plantas que se enraízam no vaso dentro do rack de mármore, nos painéis de concreto que acompanham os passos pelo corredor da sala aos quartos, na amplitude visual de olhar a sala e a cozinha contínuas e sem barreiras que são emolduradas pela varanda que olha toda a cidade e nas obras de arte coloridas que tomam as paredes. Não é apenas sobre o gelo que estala a bebida ou a brisa que arrepia os pelos do braço banhados pelo sol ameno, há frescor na sensação de paz e aconchego, nas cores e texturas, nos sons e nos cheiros ainda que a gente esteja deitado no sofá em L coberto com uma manta azul fofinha assistindo a algum reality show de domingo.

Por isso, digo com a maior certeza: da próxima vez que seus convidados saírem do elevador e forem recebidos pelas máscaras que sorriem para eles no teto do hall, entrarem pela sala e enxergarem a sala, a cozinha, a varanda e a cidade em camadas contínuas e integradas, usarem o lavabo cheio de formas irregulares para lavar as mãos e sentarem na poltrona da varanda para assistir ao sol se por enquanto tomam uma taça de vinho não hesite em colocar temperos frescos no jantar que estará ainda nas panelas e assadeiras do fogão. Pique ervas na ilha da cozinha enquanto conversa sobre o último livro que leu com quem está sentado na sala de jantar, amasse as pimentas no pilão da varanda para observar também a cidade ficando violeta, suje a bancada preta de cúrcuma amarela, páprica vermelha e tomilho verde para recriar uma versão comestível do quadro da sala de estar. No final da noite é capaz de sobrar um certo trabalho para a lava louças, contudo, é isso que deixa a vida mais feliz.



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