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  • Lucas Almeida

As pantufas


Ruy Ohtake, o célebre arquiteto paulista que assinou muitos dos prédios da capital como o instituto Tomie Ohtake e o Hotel Unique, tem um traço mais do que marcante que carimba sua influência na construção da cidade de São Paulo. Também foi autor da casa de sua mãe, a artista Tomie Ohtake, na qual empregou sua visão funcional e utilitarista da arquitetura, contaminada pelo pensamento modernista franco-alemão de Le Corbusier, Gropius e da Bauhaus; para ele, os quartos de dormir cumpriam a função de dormir e nada além disso e, portanto, abrigavam apenas o essencial para fazê-lo: uma cama, lençóis, cobertores e travesseiros e quem sabe um espaço para deixar as pantufas.

Tamanha era a funcionalidade do quarto que na casa de sua mãe, no Campo Belo, sequer tinham janelas nos quartos pois a janela serve para contemplar e entrar luz e isso não é dormir. Certamente a visão artística e crítica que mãe e filho tinham da arquitetura abriam espaço para repensar a forma e a função das coisas cotidianas, mas o mais atraente desse discurso é, talvez, poder repensar o que significa o nosso próprio quarto e talvez buscar a história que as nossas pantufas contam enquanto descansam no pé da cama.

Apesar da configuração o quarto é primeiramente um refúgio, seja compartilhado com irmãos, com o espaço de trabalho ou sozinho estamos ilhados no mundo particular dentro das paredes que o dividem do resto da casa, como uma capela atrás do altar de uma igreja que resguarda uma sacralidade apenas para os que podem adentrá-la. Em segundo lugar o quarto é onde entramos totalmente despidos, e não falando apenas de roupas mas sim de tudo que trazemos da rua e por isso que talvez ele seja o ambiente no qual mais nos preocupamos com as cores das paredes e dos móveis; seja para relaxar, se concentrar, se isolar ou ampliar o ambiente a tinta que recobre as paredes terá um papel mais significativo no quarto do que em outros ambientes.

E então, qual história conta o seu quarto? Existem aqueles que têm camas desarrumadas durante todo o dia afinal não faz sentido esticar um lençol que será revirado na noite seguinte, outros guardam amplos espaços de estocagem e apoios como cômodas, armários, estantes e mesinhas para que tudo esteja a mão sem precisar sair dali. Existem também os quartos multifunção: aqueles que além de dormir servem para fazer ioga, trabalhar, ler e assistir séries deitado na cama. Tem o quarto para hóspedes que vai ser usado vez ou outra e nem sempre contará a mesma história e o quarto de vestir que conta duas histórias opostas: a animação de se arrumar com o maior primor e a excitação de se despir de todos os acessórios, cintos e sapatos depois de voltar para casa as duas e meia da manhã.

Acredito que Ruy estava certo em uma parte, o quarto é sim um lugar de abrigar uma função específica, mas talvez essa função não seja o dormir apenas. O brincar também está dentro do quarto de uma criança que visita quatro universos diferentes dentro da sua imaginação sem sequer sair pela porta e cada mesa, prateleira e gaveta vira algo totalmente novo quando o quarto se transforma numa expedição à lua ou um castelo medieval. O trabalhar também pode fazer parte dessa função obrigatória do quarto de dormir e a mesa do computador vira o apoio do livro de cabeceira e do chá de camomila depois que o notebook já está desligado e a calça de linho foi substituída pelo pijama de flanela com desenhos de carneiros. Vestir-se é outra função acoplada que transforma a cama de dormir no suporte para todas as peças que serão provadas até encontrar a camisa perfeita para ornar com uma calça cáqui de barra dobrada enquanto o quarto mais se parece com um editorial de revista de moda até o momento em que tudo volta pro armário. Ou seja, eu acredito sim que existam funções únicas nesse ambiente que é tão aconchegante quanto um abraço, mas o que é único não é o que se faz dentro dele e sim a forma com que o usamos para nos recarregar e confortar quanto estamos ali.

E talvez seja por isso que o quarto é usualmente o ambiente preferido de muitos, apesar de todas as histórias que o resto da casa pode nos contar existe uma que apenas nós contamos quando estamos deitados com um livro, uma série ou apenas os pensamentos que vão e vêm quando olhamos para o teto, afinal, não existe história melhor do que aquela que é contada quando estamos de pijama.




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