A janela


A visão é um sentido extremamente complexo, composto por diversas partes interligadas que processam a luz que entra pelos olhos e a leva para ser interpretada pelo cérebro. Esse trajeto longo é feito tão rápido que sequer é possível se dar conta de que, na verdade, estamos vendo uma interpretação matemática de milhões de ondas luminosas a nossa volta. Esse raciocínio lógico bastaria para o lado esquerdo do nosso cérebro, contudo, toda a porção direita se empenha com afinco em empregar definições criativas e interpretações significativas dos estímulos visuais. Com isso, o homo sapiens é capaz não apenas de enxergar, mas também de imaginar, criar, acreditar e contar histórias e ligar tudo isso com experiências passadas e de outros homo sapiens em uma imensa rede de conhecimento compartilhado.

Os olhos são a janela da alma, o que eles enxergam é tão importante quanto o que os outros enxergam no fundo deles. O brilho do olhar apaixonado e as faíscas de um olhar raivoso muitas vezes comunicam muito mais que qualquer outro tipo de linguagem. Nessa mesma lógica podemos dizer então que as janelas são os olhos da casa e tão importante quanto a vista lá de fora é a alma que é enxergada aqui dentro. Acho que uma janela que mira um por do sol manchado de laranjas e violetas acima de um mar de prédios polvilhado de luzes é, sem dúvidas, encantador. Contudo me pego muitas vezes imaginando qual é a alma que essa cidade enxerga por trás dos olhos desse apartamento que, a menos que você esteja em um drone, dificilmente serão vistos por outros homo sapiens.

Certamente existirá muita alma nas persianas se abrindo bem cedo enquanto a cama vai sendo arrumada, esticando os lençóis junto com a preguiça que só vai embora completamente depois de um banho e um expresso. Uma parte dessa alma será posta na mesa posta junto aos pães e frutas e alguns pedaços de parmesão que sobraram de uma macarronada de dias atrás. Uma outra parte estará no meio das mantas ao lado do sofá que vão esquentar as pernas durante o filme de sessão da tarde no domingo preguiçoso. O que eu quero dizer é: toda a vida cotidiana que acontece por trás de uma janela é a alma de algo maior que nós, a junção desse monte de almas que são exibidas por cada uma das janelas como se fossem milhares de peças de teatro simultâneas é o que confere uma camada de aconchego nessa selva de pedras e torna a paisagem amigável e é por isso que, mesmo de longe, existe muito fascínio em olhar essa paisagem de prédios polvilhados de luz, porque ainda que não consigamos ver sabemos que cada pontinho iluminado ao longe é a alma de um lar.

E talvez seja por conta desse fascínio que temos pela paisagem da cidade que buscamos remontar seus detalhes dentro de casa. Enxergamos prédios nos pilares de concreto da sala que estão abraçados a lembranças de viagens e fotos de família; o polvilhado as luzes indiretas espalhadas pelo teto de concreto lembram o mar de janelas iluminadas no horizonte. Até mesmo tons amarelos, laranjas e violetas do céu viram flores no painel pintado na parede da cozinha, assim como os grafites em muros e prédios do centro da cidade. E as janelas, grandes panos de vidro, misturam o que está lá fora e aqui dentro em uma dança até o momento em que tudo é uma coisa só, um grande espaço único cheio de casa e cidade que entendemos e acolhemos como lar.

Para o lado esquerdo do meu cérebro, estaríamos apenas falando de um apartamento no vigésimo segundo andar com sala e cozinha integradas e belíssimos pilares e teto de concreto, um painel artístico que remonta flores e plantas na parede da cozinha e ainda faz uma releitura dos grafites do elevador do próprio prédio e tudo isso coroado por grandes janelas basculantes de onde entra muita luz e por onde se vê toda a zona sul de São Paulo. Entretanto é a riqueza de interpretações do lado direito que adiciona uma nova camada de significado a esse ambiente cuidadosamente pensado para funcionar e agradar. Recentemente li um livro[1] que falava sobre como o homo sapiens busca trazer significado para que cada uma de suas experiências tenha um valor único e simbólico, por isso me importa muito saber o tamanho e a vista da janela e se bate sol suficiente para as plantas que vão ficar apoiadas no banco afrente, contudo, talvez o que mais me traga fascínio é descobrir o que existe por trás desses olhos que enxergam a cidade.

[1] Homo Deus: Uma breve história do amanhã de Yuval Noah Harari. Companhia das Letras, 2016.




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