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  • Lucas Almeida

O chaveiro


Certa vez minha mãe me perguntou como eu conseguia ter tantas coisas penduradas no meu chaveiro. Em minha bolsa havia um emaranhado de chaves da minha casa e da minha avó junto a argolas, enfeites e pingentes. Isso só foi mudar anos depois quando fui morar sozinho, a chave do meu apartamento tinha uma base redonda e prateada e estava pendurada em um chaveiro plástico amarelo com o número 37 escrito à mão. Este logo foi substituído por uma medalha de São Bento que passaria a ser seu único adorno até que recebesse como companheira a chavinha preta do cadeado da minha bicicleta.

Ter aquela chave em mãos me fez refletir sobre as portas que ela abriria, muito além da única entrada do meu pequeno apartamento alugado em São Paulo, ela destrancava uma série de expectativas e sonhos que me acompanharam por boa parte da vida. Construir um lar não é das tarefas mais fáceis, é como quando cortamos uma folha de jiboia e temos que deixar alguns dias em um copo com água para criar raízes antes de colocar em um vaso com terra, leva tempo até se fincar no novo terreno e reconquistar a estabilidade anterior à mudança.

Nesse período qualquer tempo livre virou um momento de negociar um caminhão de mudança e agendar a ligação da energia enquanto longos debates em cima de plantas baixas com três posições diferentes para a cama apareciam em meio ao jantar. Certamente para mim esse processo foi bastante ortodoxo, no meio da faculdade de arquitetura e filho de uma arquiteta era inegável que o simples arranjar dos poucos móveis que cabiam em trinta metros quadrados viraria um dos grandes projetos no qual eu já trabalhei. E assim foi sendo construído esse lar, com algumas coisas novas e outras herdadas, dezenas de experimentos no papel e uma montagem a oito mãos que resultou no meu novo lugar preferido.

Ainda assim não me mudei com muito, na realidade o que menos tinha em casa eram móveis, a concretização desse projeto estava em todo o afeto que foi colocado sobre cada desenho, nos laços que foram trançados durante cada visita e na história que cada detalhe teria para ser contada muitas e muitas vezes, assim como essa. Gosto de dizer que a arquitetura constrói lugares e não espaços; espaço é muito impessoal, não temos relação afetiva com o espaço sideral, por exemplo, pois nunca estivemos lá. Agora lugar é inundado de sentimentos e vivências. Era isso que dizia Christian Norberg-Schulz, um arquiteto norueguês do século passado, e é assim que enxergo meu pequeno apartamento onde cabe uma vida inteira.

Portanto, essas foram as portas que aquela chave abriu. Tê-la em mãos foi o incentivo para começar a procurar suas fechaduras e acredito que seja esse o primeiro passo para se construir um lar. Junto à cada planta baixa que foi feita para esse apartamento existiu uma narrativa que contava histórias de vida e abria espaço para novas histórias serem criadas, que organizava lembranças e que adubava a terra firme onde a mudinha de jiboia seria plantada. Hoje eu levo toda essa experiência pendurada em meu chaveiro, que está maior do que nunca.


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