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  • Lucas Almeida

O projeto


Por volta das 7:30 o pão francês sai do forno na padaria da minha rua, logo depois da esquina que sobe para a igreja. Como existem poucas coisas melhores que um pão quentinho acompanhando um café preto pra acordar eu costumo ir busca-lo logo de manhã e passo no mercadinho, entre o balcão e o caixa eu posso optar entre ir pelo corredor dos pães, biscoitos e bolos ou, o pior, o dos doces e chocolates. Geralmente é nesse momento em que estou segurando o saco de papel aberto para não abafar os pães que, com a mão livre, acabo pegando algum docinho que está estrategicamente posicionado para mim, nesse impulso acabo lembrando que o azeite está no fim e no caminho para busca-lo passo pelos pacotes de macarrão, quando decido que vou fazer um espaguete pra janta desisto de equilibrar o pão nos braços e busco uma cestinha, não é mais apenas uma passadinha na padaria.

Diariamente consumimos uma infinidade de produtos e não teríamos dificuldade de listar ao menos 20 que temos ao nosso redor. Aquilo que trazemos do mercado, os livros que compramos em alguma temporada de desconto, as roupas que chegaram pelo correio, da mesma forma que é muito fácil se policiar para garantir a qualidade do produto que compramos: se peço uma pizza marguerita com massa fina e sem borda e recebo uma tamanho pequeno de calabresa com cebola eu facilmente posso reconhecer o erro, ligar para a pizzaria e solicitar a troca em um tom levemente enfurecido dependendo da minha fome, contudo existe algo que é menos intangível, menos qualificável e muito menos palpável e que pode causar uma série de confusões quando compramos, e com isso te pergunto: qual é o produto de um arquiteto?

Se vendemos ideias e soluções qual é o produto que entregamos? Certamente a materialização da sua construção ou reforma é um produto palpável e qualificável, é fácil saber se o revestimento escolhido foi realmente instalado e se a pintura foi bem executada, contudo, isso é o resultado do trabalho de diversos profissionais que se juntam para materializar uma obra, no meio disso, onde está o produto arquitetônico?

Não acho que seja fácil explicar, mas tampouco é impossível entender. Trabalhamos com pensamentos e, por conta disso, o que entregamos é uma representação do nosso produto. O médico não te fornece a cura e sim uma descrição detalhada de quais comprimidos tomar e de quantas em quantas horas em um papelzinho que torcemos para ser digitado para que possamos compreender a caligrafia. Nós tomamos a liberdade de fazer o mesmo, mas ao invés de palavras usamos a geometria e nos comunicamos através de desenhos. Nossas ideias, processos de pensamento e soluções estão todas expostas nas plantas, cortes, elevações, detalhes e memoriais descritivos que fazemos no decorrer do projeto com diversos níveis e escalas de detalhes.

Porém não são apenas desenhos, senão seriam obras de arte abertas à interpretação e não podemos deixar que uma obra seja conduzida mais pela emoção do que pela razão. Por isso adotamos também a prática dos chefs de cozinha que, apesar de te contarem a receita passo a passo, te entregam o prato pronto para ser aproveitado. Dizer que basta misturar farinha de trigo peneirada com ovos em movimentos circulares de fora para dentro é uma forma simplificada de resumir belos anos de estudo e prática, fazendo o processo de abrir uma massa fresca parecer algo corriqueiro, contudo, é nessa simplicidade que está todo o valor agregado do produto. Em meros desenhos conseguimos comunicar as soluções que tornam uma obra viável ou não, que modificam a forma de usar um ambiente e determinam como as pessoas vão circular pelos espaços. É nesses desenhos que estão colocados todos os pensamentos, conhecimentos, estudo e experiência que tivemos e é isso que faz deles uma materialização do nosso produto, para que ao final tudo aquilo que passou por nossa cabeça vire algo tangível para quem contratou.

E por fim, existe uma questão de quanto custa esse produto e para isso não existe uma única resposta. O arroz é vendido por peso mas o macarrão por pacote e o abacate por unidade, assim como tecidos são vendidos por metros lineares e casas por metros quadrados. Cada produto tem sua própria metrificação, por isso há quem cobre por metros quadrados de projeto e quem cobre por hora trabalhada, há quem cobre por quantidade de produtos ou por visitas e acompanhamentos de obra isolados. Para tudo isso também existe um valor mínimo porque ainda que o trabalho seja rápido existe toda uma infraestrutura de conhecimento, estudo e prática que permitiu ser tão simples ainda garantindo uma boa qualidade. Por isso, assim como passamos o pacote de lentilhas no escâner para saber o preço antes de levar para o caixa, sempre podemos pedir um orçamento e saber como aquele valor foi calculado, será muito mais fácil entender qual o produto a ser entregue quando tomamos conhecimento de como foi concebido.


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