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  • Lucas Almeida

O escritório


É muito comum buscar uma forma de o ambiente transmitir a mensagem que queremos passar para quem o visita, especialmente quando se trata de um escritório ou algum espaço comercial onde se tem a intenção de vender uma imagem ao cliente que está ali pela primeira vez. São diversas as maneiras que podemos contar uma história sem sequer abrir a boca, as cores nas paredes e os quadros pendurados, fotos e lembranças de viagens, diplomas, flores e plantas e uma biblioteca pessoal dizem muito a respeito de quem usa o ambiente e como o usa.

Nessa busca por respostas a arquitetura muitas vezes disseca o usuário para poder expressar quem aquela pessoa é nas cores, mobiliários e decorações que estão ao redor, seja para que a pessoa se identifique no espaço e se sinta em casa, mesmo que esteja em uma pizzaria no happy hour com os colegas de trabalho, ou então sinta firmeza e convicção no que é dito ali, quando se trata de um cliente visitando o escritório do seu advogado, por exemplo.

Especialmente nesse segundo caso existe muita história para contar dos porquês de cada coisa. Marco Vitruvio (o mesmo que serve de inspiração para o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci) escreveu um tratado chamado De Architectura no qual falava das características que tornavam algo arquitetura ou não, dentre elas, as três principais eram firmitas, utilitas e venustas. Firmeza, utilidade de beleza eram indispensáveis para qualquer arquitetura pois ela precisa ficar de pé e sem correr o risco de colapsar, precisa ter alguma utilidade além de ornamental para que faça sentido de ser inserida naquele contexto e precisa ser atraente, harmônica e bela. Séculos se passaram e ainda utilizamos a tríade vitruviana na execução de projetos de arquitetura em diversas escalas, voltando ao escritório do arquiteto em questão, quando o cliente sentar na mesa de reunião poderá se impressionar com a beleza do mármore polido, a venustas, a solidez e frieza da pedra trarão ainda mais credibilidade para a fala daquele advogado que estará apresentando seu trabalho (firmitas) e, ao final de uma longa explicação, utilizará a superfície brilhante para assinar o contrato (utilitas).

Com isso vamos criando toda uma espacialidade que se apoia nesse tripé conceitual, desde a pia da copa que apoia o café e bolachas até a estante de livros com painéis em muxarabi que buscam na arquitetura árabe suas referencias para a composição da peça, detalhes de marcenaria nas mesas de trabalho que além da função estética organizam os objetos e permitem uma clara leitura do que acontece naquele espaço, plantas, quadros e o próprio painel de madeira que, além de decorar e acalentar buscam adicionar ao escritório sólido uma escala humana e frágil, que precisa de sol e água assim como nós para se manter viva.

Portanto não é apenas de memórias que vive um ambiente, a história que ele conta pode ser utilizada para amplificar, reforçar, autenticar e qualificar o discurso que ali acontece. Sentir a pedra fria contra a pele enquanto escuta um argumento de defesa te leva a enxergar aquela fala dentro do sólido pilar ético e imparcial do direito, combinar um elemento de arquitetura que saiu das arábias e viajou pela Europa até chegar no Brasil junto com uma estante de livros dá a ela não apenas um caráter estético e organizador mas extrapola o conhecimento que está dentro daquelas capas para que o visitante também veja suas referencias sem sequer ter lido na vida algum livro sobre arquitetura moura. As memórias ainda adicionam uma camada nova acima de tudo isso que dá liga a esse monte de buscas que vão formando um ambiente multicultural, são elas que vão atribuir o caráter pessoal para sabermos que ali existe um ser humano de carne o osso ocupando, usando e vivendo, irá diferenciar o que é orgânico do que é apenas um mostruário de loja de departamentos, que apesar de ser belo carece de calor.

Enfim, existe muita margem para contar história na arquitetura, é por isso que preservamos patrimônios que as vezes pouco entendemos a razão dada a simplicidade da composição, por isso que mantemos vivos museus e casas de personalidades que marcaram nossa história, por isso ainda andamos na rua e, frequentemente, olhamos para cima e enxergamos a imensidão de prédios ao redor. Se a vida é feita de histórias a arquitetura é quem vai montar um novo cenário para cada uma.

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