A família

Atualizado: 29 de jun.

Recentemente me mudei para um apartamento novo no qual não tinha número na porta. Provavelmente deve ter caído com o tempo, ou algum proprietário tirou por alguma razão estética ou cabalística, acontece que ainda sendo muito simples achar o apartamento dezoito apenas seguindo a sequência de portas no corredor sempre existe um certo receio das visitas em tocar minha campainha na primeira vez que vêm a minha casa. Por isso decidi pendurar uma foto da minha família na porta, nela estou e meu namorado junto da nossa gata, Pisco, parecendo um pãozinho preto com olhos amarelos e apenas uma orelha.





Com isso me perguntei como seriam as outras famílias desse prédio, afinal conheço poucos vizinhos, mas já vi diversas configurações de famílias morando num apartamento igual ao meu. Existe a mãe que mora com duas filhas no meu andar e a família de colegas de faculdade que dividem apartamento no andar de cima, tem uma família de namorados que se dividem entre São Paulo e Rio de Janeiro no quinto andar e a família de um casal com o cachorro Joaquim que sempre me cheira quando nos trombamos na entrada do prédio. É interessante pensar como essas tantas famílias vivem, comem, dormem e compartilham o espaço que eu compartilho com o Guilherme e a Pisco, algumas delas dividem quarto, algumas têm camas de pets, alguns pets dormem embrulhados na cama de casal (nesse caso, a Pisco), algumas fazem refeições na mesa e outras em videochamada com quem está longe, tudo isso nos mesmos cinquenta metros quadrados que eu moro.



Porém não sei se uma família é meramente composta por quem vive junto, acho que existe um laço a mais que torna um grupo familiar ou não, é um afeto embrulhado com cuidado e com uma pitada de preocupação, por isso que a nossa família vai se dividindo em casas, cidades, estados e países e se num dia estamos tomando vinho juntos na mesa no outro estamos cozinhando enquanto fazemos uma videochamada para a Noruega. Mas apesar de tudo isso, muito se fala que o lar é o lugar de reunião da família, então outro questionamento me surge: como tantas famílias diferentes fazem para se encontrar?

Apesar das telas que juntam os que estão longe acredito que todo lar tenha seu espaço de reunião da família, seja na mesa redonda cheia de pratos ou no sofá cama que abriga uma mãe e uma irmã espremidas durante um fim de semana, nas encostados nas paredes da cozinha enquanto se prepara o almoço de domingo ou todos deitados na mesma cama de casal enquanto conversam. A questão é que, seja apenas um sofá de dois lugares ou uma sala com poltronas, televisões e brinquedos, todas as famílias dão um jeito de se reunir quando existe um lar.



Portanto, concluímos que a arquitetura não pode projetar tudo, afinal ela deixa espaços que devem ser preenchidos por aqueles que usam o projeto e por isso que um projeto nunca se finaliza. Afinal, quando se quer projetar um lar, é preciso deixar um grande espaço vazio para caber todo o afeto que existe entre pais, mães, filhos, avós, tios, animais, amigos, sobrinhos ou qualquer outra configuração, seja grande ou pequena, de todos os tipos de família que existem.

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